Desastre ambiental em Barcarena foi foco do Bate Papo FACOM sobre ecologia política e jornalismo em zonas de sacrifício
Que papel o jornalismo tem desempenhado em áreas de conflito socioambiental na Amazônia e no mundo? Pedro Loureiro, doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA, apresentou em 16 de outubro, no PPGCom, alguns achados de sua pesquisa baseada na análise da cobertura on line dos jornais G1, Diário do Pará, Brasil de Fato e Amazônia Real sobre o vazamento da bacia de rejeitos da empresa norueguesa Hydro Alunorte no município de Barcarena, de 2018 a 2023. “A não neutralidade se expressa na escolha das fontes, o recorte que vai ser dado, qual vai ser silenciado”, antecipa o pesquisador.
Em 2018 a mineradora Hydro foi denunciada por moradores de Barcarena pelo vazamento de rejeitos de metais pesados. Diferentes pontos da cidade estavam com imensas poças de água vermelha após forte chuva. A empresa negou o fato e, após fiscalização, a Secretaria de Meio Ambiente do Pará também atestou a versão da empresa. Laudo do Instituto Evandro Chagas, no entanto, acionado pelo Ministério Público do Estado e Ministério Público Federal, constatou o vazamento e a contaminação em comunidades ribeirinhas - inclusive por dutos clandestinos, provocando graves problemas de saúde nos moradores e elevando o risco de câncer na região. A ideia da pesquisa surgiu quando Loureiro cobria uma audiência do Ministério Público, onde trabalha como assessor de comunicação, sobre o caso, e observou de perto a “dinâmica que envolve poder econômico, poder político e a imprensa, que é muito importante nessa história”, de acordo com o pesquisador.
Achados de Pesquisa
Foram identificadas muitas diferenças na cobertura entre os veículos estudados. G1, da família Maiorana, e Diário do Pará, da família Barbalho, tiveram mudanças de postura. Ambos começaram forte e depois esmoreceram. O governador na época era Simão Jatene e quando este foi sucedido por Helder Barbalho, a pesquisa demonstra que o assunto sumiu do Diário. A Hydro porém continuou em pauta, mas através de notícias sobre sua participação em reuniões com o governador a respeito da Cop 30 ou sobre projeto social da empresa voltado para o público de mulheres na região.
De outro modo, o Brasil de Fato, criado por movimentos populares como o MST e Comissões Pastorais, e o Amazônia Real, fundado e mantido por jornalistas independentes, mantiveram a denúncia e a investigação. “Na contra narrativa são mostrados personagens reais, a partir da relação dessas pessoas com a natureza e como elas e seu modo de vida é afetado e atravessado. [A abordagem desses jornais permite] conhecer as pessoas que fazem parte do movimento com a mesma força que a grande mídia mostra grandes empresários. Isso gera empatia.”, analisa Loureiro.
Jornalismo em Zonas de Sacrifício
O conceito começou a ser adotado nos Estados Unidos relacionado a populações que viviam próximas de áreas de exploração de petróleo. A ideia é que “em nome do avanço do capitalismo, por algo que beneficiaria o mundo todo, alguns lugares seriam sacrificados em nome disso”, explica o pesquisador, mas acrescenta que “o benefício é para uns e o prejuízo para outros” e “a escolha do capitalismo das pessoas a serem sacrificadas é pelas populações mais vulneráveis, com menos poder de resistência.” O lixão de Marituba, Região Metropolitana de Belém, foi citado como um exemplo local dessas escolhas.
Parte da pesquisa de Pedro Loureiro foi realizada na Catalunha, Espanha, onde, apesar das grandes diferenças territoriais, foram identificadas semelhanças nas coberturas jornalísticas de tragédias em zonas de sacrifício, apontando para um padrão global de incidência da comunicação sobre as questões socioambientais.
A pesquisa também evidenciou como o jornalismo participa diretamente na construção do entendimento territorial. Na fala de um morador de Barcarena “mas se a empresa for punida, a gente vai perder muito emprego”, nota-se o entendimento de um cenário regional de dependência de uma grande empresa, mas essa visão e esses valores são construídos. “Como se faz uma construção? Construindo uma imagem positiva de uma empresa, com pautas e abordagens que a associam a desenvolvimento e cuidado, por exemplo. A Hydro trabalha pela segurança ambiental, os heróis do governo estão chegando, parceria entre o governo e a Hydro pode ser salutar para a sociedade. Mascarar, constranger ou esconder são escolhas editorais”, concluiu o palestrante.
No debate, ao final da atividade, Helena Amaral, aluna de jornalismo da turma de 2026, citou o projeto de implantação de um Data Center de IA em Belém, no bairro do Barreiro, que está sendo abordado por pesquisa coordenada pela Profa. Célia Amorim, da FACOM. O projeto é alvo de um inquérito civil do Ministério Público do Pará (MPPA), que alerta para o risco de formação de "ilhas de calor" em uma região já castigada por temperaturas extremas, entre outros “sacrifícios” impostos aos moradores da capital amazônica, especialmente da periferia diretamente afetada.
“Ecologia política é a luta contra essas questões e o fortalecimento dos movimentos insurgentes”, Pedro Loureiro encerra, deixando essa inspiração aos jovens futuros jornalistas da Amazônia.