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Desastre  ambiental  em  Barcarena  foi  foco  do  Bate  Papo  FACOM sobre ecologia política e jornalismo em zonas de sacrifício

Publicado: Sábado, 07 Novembro 2026 11:20 | Última Atualização: Sábado, 07 Novembro 2026 11:20 | Acessos: 19

Que  papel  o  jornalismo  tem  desempenhado  em  áreas  de  conflito socioambiental  na  Amazônia  e  no  mundo?  Pedro  Loureiro,  doutorando  do Programa de  Pós-graduação  em  Comunicação,  Cultura  e  Amazônia  da  UFPA, apresentou  em  16  de  outubro,  no  PPGCom,  alguns  achados  de  sua  pesquisa baseada  na  análise  da  cobertura  on  line  dos  jornais  G1,  Diário  do  Pará,  Brasil de  Fato  e  Amazônia  Real  sobre  o  vazamento  da  bacia  de  rejeitos  da  empresa norueguesa  Hydro  Alunorte  no  município  de  Barcarena,  de  2018  a  2023.  “A não  neutralidade  se  expressa  na  escolha  das  fontes,  o  recorte  que  vai  ser dado, qual vai ser silenciado”, antecipa o pesquisador.

Em  2018  a  mineradora  Hydro  foi  denunciada  por  moradores  de  Barcarena pelo  vazamento  de  rejeitos  de  metais  pesados.  Diferentes  pontos  da  cidade estavam  com  imensas  poças  de  água  vermelha  após  forte  chuva.  A  empresa negou  o  fato  e,  após  fiscalização,  a  Secretaria  de  Meio  Ambiente  do  Pará também  atestou  a  versão  da  empresa.  Laudo  do  Instituto  Evandro  Chagas,  no entanto, acionado  pelo  Ministério  Público  do  Estado  e  Ministério  Público Federal,  constatou  o  vazamento  e  a  contaminação  em  comunidades  ribeirinhas -  inclusive  por  dutos  clandestinos,  provocando  graves  problemas  de  saúde  nos moradores e elevando o risco de câncer na região. A  ideia  da  pesquisa  surgiu  quando  Loureiro  cobria  uma  audiência  do Ministério  Público,  onde  trabalha  como  assessor  de  comunicação,  sobre  o caso,  e  observou  de  perto  a  “dinâmica  que  envolve  poder  econômico,  poder político  e  a  imprensa,  que  é  muito  importante  nessa  história”,  de  acordo  com  o pesquisador.

Achados de Pesquisa

Foram  identificadas  muitas  diferenças  na  cobertura  entre  os  veículos estudados.  G1,  da  família  Maiorana,  e  Diário  do  Pará,  da  família  Barbalho, tiveram  mudanças  de  postura.  Ambos  começaram  forte  e  depois  esmoreceram. O  governador  na  época  era  Simão  Jatene  e  quando  este  foi  sucedido  por Helder  Barbalho,  a  pesquisa  demonstra  que  o  assunto  sumiu  do  Diário.  A Hydro  porém  continuou  em  pauta,  mas  através  de  notícias  sobre  sua participação  em  reuniões  com  o  governador  a  respeito  da  Cop  30  ou  sobre projeto social da empresa voltado para o público de mulheres na região.

De  outro  modo,  o  Brasil  de  Fato,  criado  por  movimentos  populares  como o  MST  e  Comissões  Pastorais,  e  o  Amazônia  Real,  fundado  e  mantido  por jornalistas  independentes,  mantiveram  a  denúncia  e  a  investigação.  “Na  contra narrativa  são  mostrados  personagens  reais,  a  partir  da  relação  dessas  pessoas com  a  natureza  e  como  elas  e  seu  modo  de  vida  é  afetado  e  atravessado.  [A abordagem  desses  jornais  permite]  conhecer  as  pessoas  que  fazem  parte  do movimento  com  a  mesma  força  que  a  grande  mídia  mostra  grandes empresários. Isso gera empatia.”, analisa Loureiro.

Jornalismo em Zonas de Sacrifício

O  conceito  começou  a  ser  adotado  nos  Estados  Unidos  relacionado  a populações  que  viviam  próximas  de  áreas  de  exploração  de  petróleo.  A  ideia  é que  “em  nome  do  avanço  do  capitalismo,  por  algo  que  beneficiaria  o  mundo todo,  alguns  lugares  seriam  sacrificados  em  nome  disso”,  explica  o pesquisador,  mas  acrescenta  que  “o  benefício  é  para  uns  e  o  prejuízo  para outros”  e  “a  escolha  do  capitalismo  das  pessoas  a  serem  sacrificadas  é  pelas populações  mais  vulneráveis,  com  menos  poder  de  resistência.”  O  lixão  de Marituba, Região Metropolitana de Belém, foi citado como um exemplo local dessas escolhas.

Parte  da  pesquisa  de  Pedro  Loureiro  foi  realizada  na  Catalunha,  Espanha, onde,  apesar  das  grandes  diferenças  territoriais,  foram  identificadas semelhanças  nas  coberturas  jornalísticas  de  tragédias  em  zonas  de  sacrifício, apontando  para  um  padrão  global  de  incidência  da  comunicação  sobre  as questões socioambientais.

A  pesquisa  também  evidenciou  como  o  jornalismo  participa  diretamente na  construção  do  entendimento  territorial.  Na  fala  de  um  morador  de  Barcarena “mas  se  a  empresa  for  punida,  a  gente  vai  perder  muito  emprego”,  nota-se  o entendimento  de  um  cenário  regional  de  dependência  de  uma  grande  empresa, mas  essa  visão  e  esses  valores  são  construídos.  “Como  se  faz  uma construção?  Construindo  uma  imagem  positiva  de  uma  empresa,  com  pautas  e abordagens  que  a  associam  a  desenvolvimento  e  cuidado,  por  exemplo.  A Hydro  trabalha  pela  segurança  ambiental,  os  heróis  do  governo  estão chegando,  parceria  entre  o  governo  e  a  Hydro  pode  ser  salutar  para  a sociedade.  Mascarar,  constranger  ou  esconder  são  escolhas  editorais”, concluiu o palestrante.

No  debate,  ao  final  da  atividade,  Helena  Amaral,  aluna  de  jornalismo  da turma  de  2026,  citou  o  projeto  de  implantação  de  um  Data  Center  de  IA  em Belém,  no  bairro  do  Barreiro,  que  está  sendo  abordado  por  pesquisa coordenada  pela  Profa.  Célia  Amorim,  da  FACOM.  O  projeto  é  alvo  de  um inquérito  civil  do  Ministério  Público  do  Pará  (MPPA),  que  alerta  para  o  risco  de formação  de  "ilhas  de  calor"  em  uma  região  já  castigada  por  temperaturas extremas,  entre  outros  “sacrifícios”  impostos  aos  moradores  da  capital amazônica, especialmente da periferia diretamente afetada.

“Ecologia  política  é  a  luta  contra  essas  questões  e  o  fortalecimento  dos movimentos  insurgentes”,  Pedro  Loureiro  encerra,  deixando  essa  inspiração aos jovens futuros jornalistas da Amazônia. 

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