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Das raízes às redes da Comunicação Indígena. Hericley Serejo-Santos abordou Ciência e aldeamento digital em bate papo na FACOM

Publicado: Segunda, 26 Outubro 2026 16:15 | Última Atualização: Segunda, 26 Outubro 2026 16:18 | Acessos: 13

“Há mulheres que lutam toda a vida. Estas são as imprescindíveis”. Com essas palavras, parafraseando Bertolt Brecht, professora Rosaly Brito abriu a conversa dedicando o evento à memória de Zélia Amador de Deus, professora de Artes Visuais da UFPA, primeira mulher negra a dirigir o antigo Centro de Letras e Artes (atual Instituto de Letras e Comunicação) e a se tornar vice-reitora da UFPA. Uma das maiores lideranças da luta antirracista na Amazônia e pelos direitos humanos dentro e fora da Universidade ancestralizou mês passado e não haveria como não referenciá-la em uma conversa que também aborda as lutas contracoloniais de povos amazônicos.

Hericley Serejo-Santos apresentou dia 11/09 os resultados de sua pesquisa de doutorado defendida esse ano no PPGCOM-UFPA (Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia), com orientação da Profa. Dra. Vânia Maria Torres Costa, em que estudou a Rede de Comunicadores Indígenas da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). De caráter fundamentalmente educativo e político, as práticas de comunicação identificadas apontam para o chamado aldeamento digital e político: “Agora somos nós que vamos aldear”, afirmou uma das interlocutoras da pesquisa, se referindo ao uso das tecnologias digitais para potencialização de suas vozes já com relevantes vitórias, como a criação do Ministério dos Povos Indígenas e forte resistência a pautas altamente conflitivas como o Marco Temporal e a exploração do petróleo na foz do Rio Amazonas.

A Rede de Comunicadores da COIAB foi criada através de ciclos formativos durante a pandemia, com o objetivo de combater as fake news e promover a saúde nas aldeias, porém também passou a contemplar a demanda pela divulgação das ações e falas das lideranças permanentemente em luta pela defesa dos territórios, suas culturas e seus corpos-territórios, uma vez que estes não se sentem representados pelas matérias não-indígenas.

Notas metodológicas

Hericley iniciou sua pesquisa com um conceito em mente: educomunicação. De fato, a interface entre educação e comunicação compõe o fundamento das práticas comunicacionais estudadas, porém o conceito foi rejeitado por seus interlocutores. “Na hora, deu um desespero, o que eu iria fazer com tudo que já tinha estudado sobre o conceito? Quando a gente vai pra campo com uma ideia na cabeça é difícil se desfazer dela” relatou.  Mas o pesquisador encontrou seu caminho entre observações-participantes, revisão bibliográfica e principalmente a escuta qualificada de grandes lideranças e comunicadores. “Não é educomunicação. É Comunicação Indígena” concluiu uma das lideranças entrevistadas.

Professora Rosaly, mediadora do bate papo, destacou as chamadas categorias nativas, que são justamente os achados de campo que expressam como os grupos pesquisados identificam e compreendem a si mesmos, suas práticas e saberes. Em pesquisas contracoloniais, essa perspicácia de identificar categorias nativas representam o necessário abandono de epistemologias eurocêntricas impositivas e taxativas sobre grupos historicamente silenciados.

Retribuição e reciprocidade

Em contrapartida pelos conhecimentos partilhados por seus interlocutores indígenas participantes da pesquisa, Serejo-Santos ministrou uma oficina de comunicação em um evento de mulheres indígenas. De outro modo, além de sua tese, o pesquisador-comunicador produziu o podcast Das Raízes às Redes, disponível gratuitamente no Spotify, com 5 episódios livres e descontraídos, com viés também literário, onde torna mais acessível o debate para além dos muros acadêmicos, configurando uma alternativa de contribuição acadêmica para superação de preconceitos e violência sofrida pelos comunicadores indígenas, através da difusão da informação sobre suas pautas na Amazônia.

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