Gabriel Figueiró, aluno de jornalismo, conquista medalha de ouro para a UFPA nas Paralimpíadas Universitárias 2026
Em entrevista para o site da FACOM o atleta conta sua trajetória de recordes e medalhas, ressalta a relação entre comunicação e avanço do esporte paralímpico e fala sobre o bolsa atleta, preconceito e outros temas: “Nós temos atletas de alto rendimento que as vezes tem mais rendimento do que muitos atletas atualmente que tem mais mídia do que realmente preparo físico pra disputar grandes campeonatos.”
Gabriel iniciou no esporte aos 14 anos já conquistando sua primeira medalha de ouro nas paralimpíadas escolares de 2021, representando o Instituto de Pessoas com Deficiência Visual Álvares de Azevedo. De lá até aqui, muitas conquistas, desafios e grandes planos.
Gabriel Figueiró: Minha caminhada no esporte paralímpico começou no atletismo. Inicialmente fazia corrida e modalidades de peso, mas posteriormente fui percebendo que a minha técnica estava mais no braço do que na corrida, e acabei entrando pra fazer provas de campo como arremesso de peso, lançamento de disco, lançamento de dardo, enfim, provas de força. Conquistei uma medalha de ouro nas paralimpíadas escolares de 2021, etapa estadual, mas não consegui índice para a etapa nacional. Mas era só o começo, acho que eu tinha iniciado só há um mês e isso já foi muito. No ano seguinte eu fui recordista de arremesso de peso nas paralimpíadas escolares de 2022, etapa regional norte-nordeste, que foi realizada em Natal, Rio Grande do Norte. E no mesmo ano fui recordista no lançamento de disco, em São Paulo, na fase nacional. Em 2023 também conquistei medalha de ouro, na etapa regional que ocorreu em Belém e em 2024 concluí minha etapa nos campeonatos escolares que era até os 17 anos. Ano passado representei o IFPA [Instituto Federal do Pará] nos JIFs [Jogos das Instituições Federais], fiquei muito feliz por representar porque naquele ano tava acontecendo a primeira edição dos Jifs com pessoas com deficiência. Era o Parajifs. Então me senti bem feliz em poder ter participado da primeira edição. Esse ano de 2026, após entrar pra UFPA eu me inscrevi para as paralimpíadas universitárias e participei da etapa estadual, consegui medalha de outro no lançamento de disco, e agora recentemente, em São Paulo, conquistei a medalha de ouro no lançamento de dardo e medalha de bronze no arremesso de peso, que atualmente são as três provas que eu faço, arremesso de peso, lançamento de dardo e lançamento de disco.
Gabriel, que competiu na classe F11 das Paralimpíadas Universitárias, voltada para atletas cegos totais, nos explica muito bem a sensação de representar a UFPA nessa competição. Lá ele venceu adversários de alto nível, mas junto com os adversários, acima de tudo, eles vencem preconceito e exclusão:
Gabriel Figueiró: Esse ano foi a melhor etapa que eu tive porque comecei a participar do alto rendimento. Eu pude competir com atletas de alto rendimento, atletas até mesmo de seleção brasileira. Poder conhecer essas pessoas, sentir experiências junto com eles e poder conquistar uma medalha de ouro junto com eles é uma coisa que motiva muito. Pra mim é algo gratificante principalmente por saber do tamanho que a UFPA tem no Pará, no norte, no Brasil todo. A referência que ela é, então poder vestir aquela camisa e saber que algum tempo atrás eu tava representando a minha escola e agora eu to representando a minha Universidade que é uma das maiores do brasil e é a maior do norte, é algo gratificante. Quando a gente coloca a medalha no peito, quando a gente ouve nosso nome lá no pódio, o nome da nossa universidade, a gente fica realizado porque infelizmente a gente passa a quase todo momento por casos de exclusão por parte das pessoas, por preconceito e poder representar a universidade, poder representar a instituição que a gente um dia vai se formar, a gente um dia vai se tornar profissional é algo... É inexplicável. É fora do comum.
Desafios e incetivos fazem parte da trajetória de todo atleta, mas especificamente no paratletismo, Gabriel ressalta o obstáculo de uma tríade inter-relacionada: falta de visibilidade na mídia, ausência de torcida nos eventos e escassez de patrocínio. De outro modo, já tendo sido beneficiário do Bolsa Atleta do governo federal, recebido patrocínio do Tik Tok e apoios institucionais para as viagens, além da dedicação de sua treinadora e do apoio materno, o jovem atleta e estudante de jornalismo visualiza grandes perspectivas:
Gabriel Figueiró: Incentivadores eu tenho a minha treinadora, Profa. Kátia Tadaiesky, que é minha professora desde 2021, não tenho nem como descrever, ela tá sempre lá, uma ótima pessoa, uma ótima profissional também. Ela faz o possível pra gente se sentir bem nas competições até nos momentos que a gente não consegue conquistar algo, não consegue uma medalha, ela tá lá pra apoiar a gente, pra motivar e quando a gente conquista ela comemora junto com a gente. Sobre patrocinadores, eu já tive patrocínio do Tik Tok em 2022, que patrocinou alguns atletas. Eu tive o bolsa atleta que eu recebi no período que eu participei das paralimpíadas escolares, de 2023 até 2025, pela Caixa Econômica Federal. E também os auxílios que eu recebia da IFPA quando comecei a participar dos JIFs e esse ano na UFPa pra gente realizar nossa viagem. Mas atualmente estamos sem contratos de patrocinador específico.
Desde 2021 eu treino na Escola de Educação Física da UEPA. Agente tem nosso Centro de Referência na UFPA, Centro de Referência Paralímpico, mas infelizmente não tem espaço adequado pras provas que eu faço. O principal desafio esse ano foi conseguir manter uma carga exata de treinos porque como eu estou começando agora a Faculdade, tá sendo tudo novo, então muitas vezes a gente mesmo cansado tem que ir treinar. A Escola de Educação Física da UEPA é longe da UFPA, então você tem que almoçar, as vezes tem que ir pra casa se arrumar, são diversos desafios e um dos desafios que a gente precisa falar é pela falta de divulgação, que não digo nem agora, mas em toda minha caminhada como atleta paralímpico, a gente nunca teve um grande engajamento. E não é só a gente, atletas de alto rendimento também, a gente não vê tais coisas sendo faladas na televisão, quando são faladas é brevemente. Isso é algo que preocupa. Durante essa minha caminhada eu já encontrei muitos atletas que era de um nível surreal que só não era visto pela grande mídia mas tinha potencial pra conquistar grandes prêmios. Os maiores desafios são esses. Como também espaço pra treinar. Infelizmente a gente não tem as melhores estruturas. Desde que eu inicie temos essas questões. Assim como a falta de patrocinadores e apoiadores e como eu falei, das mídias. Se a gente não tiver a mídia, a gente não vai alcançar os números que poderia ter. É um dos desafios que a gente tem como atleta. As escolas pagam, às vezes o Estado paga, a Universidade paga pra gente ir, mas é complicado porque às vezes a gente tem só pra viajar, depois volta tudo ao normal, não acontece bem o que realmente a gente esperava.
O ingresso de Gabriel no curso de jornalismo foi motivado exatamente pelo seu reconhecimento da comunicação como fator fundamental para o fortalecimento dos esportes paralímpicos.
Gabriel Figueiró: Sobre a carreira de jornalismo esportivo, realmente é nessa área que eu pretendo prosseguir. Foi exatamente por isso que eu optei por entrar na faculdade de jornalismo. Tanto pela minha vida de atleta, como por ser uma pessoa que quer ser um profissional da comunicação. É bom porque a gente tem nossos sonhos, objetivos. Alguém fala pra mim: tu acha que tu vai tá numas paralimpíadas internacionais? Eu falo: olha eu posso ta de duas maneiras, ou como atleta ou como repórter, de alguma forma eu posso tá lá! Pode ser que aconteça as duas! É exatamente essa área que eu pretendo seguir no âmbito do jornalismo.
Seria muito bom se houvesse mais divulgação por parte das nossas faculdades, que a gente recebesse mais apoio, que a gente pudesse ter torcida, que agente não tem. Eu tenho sempre minha mãe, que viaja comigo, torce por mim, mas enfim, infelizmente a gente tem atletas que vão lá sozinhos pra competir e não tem aquela coisa grande que a gente vê em jogos universitários, arquibancadas lotadas, torcida gritando, toda vez que eu deparo com isso eu fico ‘gente, quem me dera ter uma coisa dessas parecida, com barulho, com bateria, com corneta. Não, a gente tem no máximo os árbitros falando nosso ouvido. (risos) Infelizmente. Por isso é bom que tenha uma divulgação a mais, que entre mais pra mídia. Porque nós temos atletas de alto rendimento que as vezes tem mais rendimento do que muitos atletas atualmente que tem mais mídia do que realmente preparo físico pra disputar grandes campeonatos. Nós somos universitários mas também temos as nossas capacidades dentro do esporte. A gente provou isso trazendo essas conquistas. Ano passado eu não tava nas paralimpíadas universitárias mas o Pará ficou em primeiro lugar no quadro geral de todas as Universidades. Então isso é algo que tem que ser explorado. Tem que ser visto. Tem que ser noticiado. A gente treina todo dia pra isso e a gente quer ter um reconhecimento. Agente quer ter essa motivação.
E é bom a gente receber esse incentivo porque agente vai incentivando até nossos colegas ao redor que muitas vezes são sedentários, e ao verem a gente conquistando tais coisas talvez se motivem mais a ir, a praticar exercícios pelo menos né. Como consideração final eu gostaria de falar pras pessoas que não tem deficiência e que são universitárias, que elas procurem fazer algo que as deixe felizes. Eu digo pelo esporte que é algo que vai acrescentar muito na suas vidas, vai te dar muitos aprendizados, vai te dar boa saúde física, o que o esporte pode acrescentar pra nós é algo surreal. Mas que ela procure fazer algo que ela goste, que ela sinta, porque as vezes a gente vive só naquele ambiente de sala de aula, prova, trabalho, seminário, isso e aquilo, acaba fazendo com que a nossa mente fique só naquilo ali, mas se a gente quer conquistar mais coisas, a gente tem que ir atrás dessas coisas pra nós.
É gratificante. É algo que eu agradeço muito pelas Universidades darem isso pra nós, poderem proporcionar essa experiência pra nós que temos deficiência. Não só a UFPA mas várias universidades do Pará como a UEPA, a UFRA. Agente sabe dos erros que as Universidades tem, dos problemas que elas tem. Mas poder receber isso é realmente é único. E uma vez que a gente tem, tem que aproveitar muito porque quando acabar vai ser complicado.
Por fim, só tenho a agradecer a todos que mandaram mensagem, todos que deram parabéns, agradecer a UFPA e valeu!