CALDEIRADA 2017

Publicado por facom em 5 de setembro de 2017 às 17:43

Ciclo de Pensamento com Norval Baitello Junior marca evento deste ano. Programação foi transmitida ao vivo e está disponível na internet

Matéria: Camila Leal

Entrevista: Everton Santos

Fotos: Ivana Matos

De forma leve e bem humorada, Norval Baitello Junior, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, conduziu as manhãs de reflexão e debates do Ciclo de Pensamento da Caldeirada 2017. O professor falou sobre o tempo, sua maleabilidade e nos levou a refletir sobre a produtividade da nossa vida. Além das suas próprias experiências, Norval trouxe referências de outros pesquisadores e teóricos da área da Comunicação.

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“Vivemos numa época em que um minuto é uma eternidade. Tudo tem o seu tempo, só nós que não temos tempo. Nosso tempo vive nos empurrando, mas para onde? É uma pergunta a ser feita todos os dias. Por exemplo, um amigo meu diz que quando acorda de manhã, não tem nada para fazer e quando vai dormir, não fez nem metade. O tempo é diverso, tem várias faces, é uma entidade relacional que abrange um entorno, é uma coisa na qual estou dentro e que ela está dentro de mim também”, comentou Norval Baitello em suas reflexões.

O professor falou ainda sobre a relação entre tempo, cicatrizes, sobressaltos e sonhos. Segundo ele, precisamos cultuar, habitar o presente. Nosso mundo é formado e formatado para vivermos cada vez menos no presente e mais no futuro. “O grande ataque que o nosso presente sofre é o ataque do futuro”. Baitello discorreu também sobre sonhos que se mesclam com presente e futuro, e como são construídos, aqueles que são nossos ou impostos a nós: “Não é meu sonho quando eu desejo um notebook, é o sonho da Apple. Não é meu sonho quando eu desejo uma roupa, é o sonho da indústria de moda. Por que não fazemos coisas para o nosso presente? Existe uma urgência, o presente é urgência”.

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No segundo dia do Ciclo de Pensamento, o professor da PUC/SP falou, entre outros temas, sobre o tempo de vida das pessoas e da maneira como é utilizado. Para ele, é preciso haver seleção em relação a como utilizar esse tempo. Contestando o célebre ditado “tempo é dinheiro”, Norval afirma que “o tempo não é dinheiro, é vida. A vida é muito mais importante do que dinheiro e quem faz essa reflexão é o filósofo Hans Blumenberg, que escreveu um grande livro, uma das maiores referências de trabalho sobre o tempo”.

No contexto da Era da Informação, Baitello falou sobre como os meios comunicacionais estão conectados ao tempo. “Nosso tempo de vida está sendo apropriado pelos mecanismos da comunicação, horas passadas em frente à televisão, utilizando a Internet etc”. Ele citou também a Mediosfera, sugerindo o livro “Mediosfera: meios, imaginário e desencantamento do mundo”, de Malena Segura Contrera.

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Norval encerrou o Ciclo fazendo um paralelo com o conceito de Sustentabilidade, um conceito que para ele é temporal: “significa fazer o futuro, o nosso futuro”. E fez ainda uma comparação entre espécies de insetos e seres humanos: “O inseto é segmentado, como a nossa sociedade é dividida. Ao longo de milhares de anos, os insetos trabalharam num meio de sustentabilidade, de continuar existindo, e a sociedade humana não. Onde foi que aprendemos a multiplicar nosso tempo para viver milhões de anos? A civilização humana tomou um rumo insustentável, se nós não mudarmos, iremos desaparecer”. O Ciclo, realizado nas manhãs dos dias 29 e 30 de agosto, foi gravado pela Facom e está disponível na página do evento.

Em entrevista especial, Norval Baitello fala sobre o tempo como matéria-prima comunicação
A comunicação tem uma grande função: criar vínculos entre indivíduos e a sociedade. Por isso é importante que os estudiosos da comunicação conheçam bem sua função. Em entrevista dada por Baitello, ele fala que o conceito de mídia precisa ser expandido. “Sabemos pela história da comunicação humana, que antes de tudo vem o gesto. Existe uma comunicação tátil, olfativa, auditiva, a partir da voz, e, portanto, isso também é mídia. Todas as linguagens que nosso corpo utiliza para atrair e manter próxima as pessoas que precisamo são, na verdade, mídias”, afirmou Norval.

Segundo Norval, há três tipos de comunicação: primária, secundária e terciária. A comunicação primária é a comunicação com as mãos, voz, gestos faciais, gestos corporais. “Essa linguagem é de uma extrema complexidade e de uma enorme importância para toda a comunicação humana. Mas ela tem também um limite: quando acaba o momento, ela se esvai e fica apenas na memória do outro e a memória do outro também é fugaz. Então ela é passageira, uma comunicação do aqui e agora. Os meios primários, portanto, não são duradouros. Têm um tempo que é o tempo da presença e do presente imediato”, relatou Baitello.

Os meios secundários são aqueles que utilizam de um suporte qualquer, sobre o qual são registrados sinais, cores, formas e que podem durar desde uma semana, até uma vida. Esses sinais são constitutivos dos chamados meios secundários ou mídias secundárias. Segundo Baitello, para resolver a efemeridade do tempo curto, presencial, o homem começa a deixar rastros e sinais sobre quaisquer objetos. Não só começa a deixar, como começar a ler estes sinais e aqui começa o início daquilo que podemos chamar de mídias secundárias que deram origem a um grande e importante fenômeno na história do homem: a escrita e leitura.

“A mídia secundária tem um pequeno problema, que é o seu transporte. Aquilo que carrega a mídia, a pedra, o papel, a tela, tem que ser transportados até os receptores, até as pessoas a quem queremos transmitir uma mensagem e isto cria um obstáculo para grandes distâncias, obstáculo econômico. Por isso começa a ser desenvolvida uma nova forma de economia midiática, que é o desenvolvimento dos sinais elétricos”, conta o comunicólogo sobre o surgimento da comunicação terciária. “Descobriu- se uma forma de zerar a distância. Não existe mais a distância entre Brasil e Japão. É o mesmo tempo de mandar uma mensagem de Belém para Manaus. Assim nós temos um quadro interessante: daquele tempo fugaz do gesto, passamos para o tempo zerado, nulo, da mídia elétrica. Por isso o tempo é matéria prima de toda a comunicação”, completa Norval Baitello.

Confira os vídeos da transmissão ao vivo do Ciclo de Pensamento:

Ciclo de Pensamento – Dia 29/08/2017 (Parte 1)

Ciclo de Pensamento – Dia 29/08/2017 (Parte 2)

Ciclo de Pensamento – Dia 30/08/2017 (Parte 1)

Ciclo de Pensamento – Dia 30/08/2017 (Parte 2)

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