OPINIÃO

Publicado por facom em 16 de junho de 2017 às 11:30

Manuel Dutra fala sobre as especificidades do fazer jornalístico na Amazônia e sobre o desafio de romper com os estereótipos e a replicação de discursos externos sobre a região

A AMAZÔNIA COMO CAMPO DE TRABALHO JORNALÍSTICO

O jornalista que vive e trabalha na Amazônia tem necessidade e obrigação de conhecer a região a fim de produzir a notícia a partir de dentro; temos que conhecer esta região tão falada no Brasil e no mundo e ser os primeiros a deter esse conhecimento. Assim podemos dar uma contribuição para a construção de uma nova sociedade, com mais autoestima, mais conhecimento de nós mesmos.

Este artigo é produto de notas para uma palestra que fiz, como convidado, no encontro anual da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – a Intercom, na sua versão Região Norte, na Universidade Federal de Roraima, Boa Vista, em 8 de julho passado.

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Pescador do município de Altamira (Foto: Manuel Dutra).

Fazer jornalismo na Amazônia, a rigor, não difere do fazer jornalístico em qualquer outro lugar – espaço social, cultural ou histórico. O jornalismo contemporâneo possui regras universais no que tange à procura, à investigação e apuração dos fatos e à produção da notícia.

Se quisermos identificar distinções, podemos apontar algumas particularidades que nos levam a refletir sobre: a) as condições de mobilidade física do repórter; b) o lugar de fala do profissional produtor do texto noticioso ou interpretativo; c) a especificidade de ser a Amazônia um espaço que atrai a atenção planetária; d) a profusão dos discursos sobre a região, ensejando a mutação de conceitos a depender de diferentes atores.

Tal como exige a elaboração de qualquer pauta, cumpre ao jornalista dispor do conhecimento prévio do fato/objeto a cobrir, sem o que ele terá dificuldades de produzir o novo.

Vejamos item por item:
a) Quando falamos da Amazônia vêm-nos logo à mente os velhos estereótipos a respeito de sua extensão física com as suas particularidades de “inferno e paraíso”, beleza e feiura, riqueza natural e pobreza humana. Nesse sentido, somos quase sempre levados a pré-conceber uma Amazônia lá, e não uma Amazônia aqui. Daqui surge também a fantasia da aventura, o jornalista embrenhando-se no emaranhado de “mistérios” de florestas e rios cheios de situações inesperadas.

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Estudante manuseia um micro no km 170 da BR-163. Mas não consegue conexão (Foto: Manuel Dutra).

b) O lugar de fala do jornalista: não necessariamente o lugar físico, mas o lugar social, econômico, cultural e geopolítico. Há que se analisar, por exemplo, as reportagens feitas com pautas elaboradas nos suportes midiáticos hegemonicamente centralizados, como ocorre no Brasil, sendo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro que se constroem as pautas que geram reportagens que serão emitidas nacionalmente. Então, qual a visão da Amazônia que brota dessas matérias? Ou quando as pautas são supostamente elaboradas localmente, pelas equipes das emissoras afiliadas das grandes redes, será que essas equipes locais não seguem a gramática das emissoras matrizes, terminando por pouco ou em nada diferir, nas suas visões e interpretações, daquelas pautas construídas nos centros hegemônicos?

c) A especificidade de ser a Amazônia um espaço que atrai a atenção planetária. Este é um dos desafios ao jornalista que cobre temáticas desta região. Mesmo o repórter residente e que vasculha o interior da região necessitará precaver-se diante do que testemunha e cobre, e indagar-se: o que eu estou testemunhando e cobrindo tem como substrato uma visão local ou estou, consciente ou inconscientemente, repercutindo pontos de vista externos à região? Estou falando ou escrevendo para o leitor/espectador/ouvinte sobre a Amazônia tal qual a percebo e conheço ou, imaginando estar assim procedendo, na verdade estou dando visibilidade a temas e interpretações externas, sem o necessário senso crítico ao senso comum e ao imaginário distorcidos, construídos desde os cronistas da colonização?

d) A profusão dos discursos sobre a região, ensejando a mutação de conceitos a depender de diferentes atores, conforme as suas ideologias, interesses ou desinformação. Vejamos este ponto com mais detalhes:

A cobertura de fatos categorizados como “amazônicos” pressupõe que o repórter já esteja de posse do conhecimento estabelecido sobre a região: a sua extensão, a sua formação histórica, os seus aspectos naturais, os povos aqui habitantes, enfim, penetrar na busca do novo pressupõe o domínio do conhecimento preexistente.

Assim como se faz indispensável o domínio sobre os aspectos físicos, indispensável também é o conhecimento das formações discursivas que, ao longo dos séculos até os dias atuais construíram e constroem uma “Amazônia” que impregna o imaginário coletivo, dando origem a um senso comum que tende a se tornar presente no texto jornalístico, seja no jornal/papel, nas revistas, na televisão ou nos ambientes digitais. Estes, da mesma forma como os demais suportes midiáticos, chamados de novas tecnologias, repetem e reforçam estereótipos tão antigos.

Podemos afirmar que o termo Amazônia seja uma palavra caleidoscópica, que transporta os sentidos de um espaço histórico sobre o qual se produziram os mais diversos tipos de sentidos e que hoje se torna objeto de intensa disputa travada pela multidão de atores que buscam, de diferentes posições, dar a sua definição, como que a última palavra sobre o que consideram o real significado desta região. Na introdução de meu livro intitulado ‘A natureza da mídia’, está escrito:

“Distinta entre outros lugares, a Amazônia, como enunciado catalisador de múltiplos discursos, mantém e realça fragmentos daqueles sentidos que podemos considerar como fundadores dos relatos das descobertas, produtos e produtores de uma polarização instituída por práticas discursivas que estabelecem uma lógica dicotômica que dá visibilidade aos recursos naturais e, no mesmo processo, promove a invisibilidade humana. No interior dessa bipolaridade se estabelece como que um campo discursivo no interior do qual se torna presente a disputa e se fabricam novos sentidos.

Ao lado de uma Amazônia urbana e moderna subsistem outras Amazônias singulares e dotadas de traços específicos que as tornam frequentes itens de pauta da mídia. A Amazônia, entendida como espaço físico-geográfico e humano, não constitui algo homogêneo nem um vazio. Aqui sobrevivem grupos aos quais a mídia, com frequência, chama de “povos da floresta”, às vezes “povos da Amazônia”, para os quais torna-se familiar a presença de antenas parabólicas, sucedâneas do rádio, tornando presentes, no lugar, realidades do mundo contemporâneo”.

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Grupo descendente dos guerreiros cabanos, moradores na localidade de Cuipiranga, município de Santarém (Foto: Manuel Dutra).

Percebe-se que a Amazônia é tanto urbana como não urbana, no entanto, é esta última característica que se sobressai nas reportagens: as chamadas pautas nacionais sobre a região raramente revelam o seu lado contemporâneo, detendo-se nos seus aspectos naturais, até contrapondo cultura e natureza, como se a região fosse apenas natureza e não também cultura. Ou, ao mesmo tempo, refazendo à exaustão, a produção de imagens mostrando os povos originários como congelados no tempo, ou “povos sem história”, como diz Eric Wolf em seu livro “Europa e la gente sin história”.

O debate ambiental, palavras em mutação
Um dos grandes desafios do jornalista quanto às temáticas amazônicas é a cobertura do chamado debate ambiental. Para tanto, ele deve possuir algo mais do que o conhecimento comum sobre a terminologia usual, uma vez que são termos que carregam múltiplos sentidos. Por exemplo, o que vem a ser “desenvolvimento sustentável” para o militante da ONG ambiental, ou para o assessor de imprensa da Vale, ou para o pesquisador, ou para a pessoa de média instrução? Há um inventário realizado pelo sociólogo ambiental Michael Redclift, do King’s College London, em que ele encontrou nada menos do que cem significados para “desenvolvimento sustentável”. Este autor publicou um livro cujo título já reflete essa multiplicidade, incluindo as contradições destes dois termos: “Sustainable development: exploring the contradictions”.

Dessa forma, o jornalista que pauta matérias ambientais terá que estar de posse dessas ferramentas teóricas e informativas a fim de escapar da vulgarização de termos multifacetados e que podem transformar o repórter em mero repassador de contradições, interesses diversos, interpretações ao gosto dos entrevistados. Regra que, aliás, serve para toda e qualquer cobertura, notadamente no ato da entrevista, em que o repórter pode resvalar para as aspas no interior das quais nem o próprio jornalista saberá movimentar-se, menos ainda o leitor.

De posse desse conhecimento prévio, o repórter poderá construir questões, por exemplo, bem atuais, sobre a construção de hidrelétricas na Amazônia, poluição de inúmeros rios, incluindo um dos maiores rios amazônicos, o Tapajós, desmatamento, violência pela posse da terra, manifestações culturais, o protesto de grupos indígenas (por exemplo, todos os indígenas são contrários à construção de hidrelétricas?), a relação entre indígenas e garimpeiros, disputas intra-etnias pelo ouro dos garimpos e a venda ilegal de madeira de dentro das reservas, etc.).

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Carreta transportando soja de Mato Grosso para Itaituba, no Pará, por estrada sem asfalto (Foto: Manuel Dutra).

Nesse campo, extremamente amplo, o repórter poderá, desde que desinformado, tornar-se porta-voz tanto de ONG’s quanto do governo ou de empresas interessadas na exploração dos recursos naturais da Amazônia.

Por exemplo, o que distingue ‘preservação’ de ‘conservação’? E a infinitude de termos como ecologia, ecossistema, biota e toda a terminologia que permeia, nas últimas décadas, as reportagens sobre a Amazônia? São termos que transportam questões de fundo, como a desconexão entre meio ambiente e pobreza, como se lê em Pablo González Casanova, em seu livro que traz o título “O colonialismo global e a democracia”. Alguém já observou o Greenpeace, por exemplo, empenhando-se em denunciar ao mundo a pobreza dos povos originários e dos ribeirinhos da Amazônia? Esta multinacional do ambientalismo, assim como outras, denuncia a construção de hidrelétricas e a devastação das florestas. Mas esquecem (raras são as exceções) a pobreza amazônica que contrasta com a exuberância de seus recursos.

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Floresta alagada no lago Maicá, no Baixo Amazonas paraense, um dos famosos igapós (Foto: Manuel Dutra).

Casanova adverte que esses conceitos centrais do ambientalismo são gestados nos centros hegemônicos de pesquisa científica, nos países onde se localiza a biotecnologia, conceitos que são impostos a muitas ONG’s e governos dos países detentores dos recursos naturais que os recebem de modo acrítico. Casanova aproxima-se de Eliseo Verón quando, no caso da sociologia, este afirma que a pesquisa mista de cientistas locais e cientistas dos Estados Unidos e da Europa, com dinheiro externo, termina servindo aos interesses dos países industrializados. Diz Verón: “quem dá o dinheiro, dá também as hipóteses”, isto é, quem financia a pesquisa torna-se dono de seus resultados.

Conhecendo a história da ocupação e da exploração dos recursos amazônicos, o jornalista poderá, por exemplo, comparar a declaração do médico-midiático Dráuzio Varela, num programa da Rede Globo, há algum tempo, quando ele afirmou que “nós não temos nada a aprender com os índios”. Mesmo assim ele estava lá no Rio Solimões, guiado por um descendente indígena, coletando folhas e essências vegetais para levar para São Paulo. Para Varela, essas folhas e óleos vegetais só se tornarão remédios depois que forem transformados nos laboratórios.

A afirmação de Dráuzio Varela lembra outra bem mais antiga, do século 19, expressa pelo pesquisador bávaro Von Martius, para quem os índios eram tão indolentes que sequer conheciam os remédios que podem ser retirados da natureza. Bem mais tarde, no entanto, Sérgio Buarque de Holanda escreveu que, mesmo detratando o mérito dos indígenas, Von Martius escreveu a sua “Matéria Médica” basicamente a partir dos conhecimentos da medicina indígena. Regra que segue até os dias atuais e que vem sendo cultivada desde os tempos coloniais: um discurso que torna invisíveis as pessoas e suas culturas e outro que enaltece os recursos naturais.

Atualidades
O jornalista que vive e trabalha na Amazônia ou qualquer jornalista que se proponha a construir pautas sobre a região precisa compreender as políticas que hoje se impõem à região: a mineração, o agronegócio, as questões indígenas, os aspectos urbanos e não urbanos, as migrações, a garimpagem, a lógica eterna da exportação de matérias primas, a Lei Kandir. Ou seja, a permanência da Amazônia como estoque de riquezas, ambiente destinado a resolver problemas que lhe são externos, condição colonial secular.

O jornalista que vive e trabalha na Amazônia tem necessidade e obrigação de conhecer a região a fim de produzir a notícia e a reportagem a partir de dentro, nós temos que conhecer esta região tão falada no Brasil e no mundo, nós temos que ser os primeiros a deter o conhecimento e não permanecer sendo pautados pelos dispositivos externos; precisamos fugir das angulações das pautas da Rede Globo e demais cabeças de rede centralizadas no Rio e S. Paulo. Dessa forma, podemos dar uma contribuição para a construção de uma nova sociedade, com mais autoestima, mais conhecimento de nós mesmos.

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Pescador conserta a rede na várzea do rio Ituqui, município de Santarém, em tempo de rio cheio (Foto: Manuel Dutra).

Durante 40 anos, atuando como jornalista no dia a dia e como professor, testemunhei o saque de uma parte da Amazônia, mais especificamente uma parcela do Estado do Pará, produzindo matérias sobre a Transamazônica, a Santarém-Cuiabá, a poluição do Vale do Tapajós, questões indígenas, a violência pela terra, a garimpagem, incontáveis quedas de pequenos aviões, os teco-tecos.

Fiz também muitas reportagens sobre a cultura, o Sairé, as pescarias, sobre as riquezas regionais. Produzi notícias e reportagens sobre literatura, artes em geral, cultura popular. Sobre a política e o descompromisso dos políticos locais com a região, solidários com todas as formas de espoliação da Amazônia. Pesquisei e produzi muitas reportagens sobre a história da Amazônia; minhas teses de mestrado e doutorado têm como base a história da região. Foi quando descobri que o conhecimento da história é essencial para o jornalista produzir o relato do presente, não repetindo simplesmente os fatos históricos, porém observando o passado para melhor compreender os acontecimentos dos dias que correm.

* Manuel Dutra é jornalista e professor da Facom-UFPA. Já ganhou 3 Prêmios Esso Região Norte. Possui especialização em Educação Ambiental (Núcleo de Meio Ambiente – NUMA/UFPA), mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pela UFPA e doutorado em Ciências Sócio-Ambientais (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido) pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da UFPA. Trabalha e pesquisa com os temas Mídia e Discurso e Mídia e Meio Ambiente.

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