MÃES UNIVERSITÁRIAS RELATAM OBSTÁCULOS ENFRENTADOS NA ACADEMIA

Publicado por facom em 13 de junho de 2017 às 17:04

Preconceito e falta de amparo institucional são alguns dos aspectos citados por estudantes

Matéria: Camila Leal e Jade Feijó

Ser mãe de primeira viagem é um grande desafio. Mas quando a pessoa precisa aliar a maternidade à vida de estudante, esse desafio pode tornar-se ainda maior. Existe o medo de não conseguir terminar a faculdade, atrelado ao preconceito enfrentado e às dificuldades do cotidiano na universidade.

Muitas pessoas tendem a ser intolerantes ou a se afastar por não saber lidar com gravidez na universidade. Os atos de exclusão são prejudiciais e não devem acontecer, pois afetam ainda mais as estudantes. Rafaela Carvalho, gestante do curso de Biblioteconomia da UFPA, é uma das universitárias que sofreu com preconceito: “Quando eu vi pessoas se afastando, eu fiquei muito magoada, porque eram pessoas de quem esperava apoio e não bastou só se afastarem, tiveram que sair falando (mal), então ficou algo bem chato para mim. Até comentei com meus pais que eu não queria mais vir (para a universidade), pois não aguentava mais isso. Todo tempo a mesma coisa, ficavam rindo de mim, falando ‘ah, bem feito!’, como se fosse uma coisa ruim”.

Mães na Universidade_Rafaela Carvalho

Rafaela Carvalho grávida de 4 meses (Foto: Acervo pessoal).

Rafaela questiona a falta de uma creche na UFPA: “Para quem estuda e tem filho é muito complicado. Então eu vejo que é uma necessidade urgente (a construção de uma creche)”. Ela também atenta para o fato de a universidade dar apenas o auxílio financeiro e aponta para a necessidade de apoio psicológico, médico e realização de palestras para mães e universitárias grávidas.

O preconceito contra gestantes é reprovável, porém recorrente, da mesma maneira que a intolerância e hostilidade transmitidas à mães universitárias, com crianças pequenas, é visível e condenável. Isabelle Cunha é mãe de Valentina, 1 ano, e cursa o 5° período de Letras-Português na UFPA. Ela conta que não sofreu preconceito enquanto estava grávida, mas começou a passar por situações embaraçosas por levar a filha para o ambiente universitário: “Ela (Valentina) estava querendo ir para o chão e acabou se mexendo e se bateu na mesa, e criança quando se bate chora muito. E o professor, simplesmente, parou a aula, cruzou os braços e ficou olhando para mim como se quisesse dizer: ‘Sim, tu não vais fazer ela calar a boca’?”

A estudante se emociona ao relatar que depois do incidente pensou em desistir do curso, mas que reconsiderou após a atitude de sua professora, que ministrou aula com Valentina no colo para que a estudante pudesse acompanhar os estudos. O fato teve uma grande repercussão nas redes sociais, após uma aluna ter fotografado. “Eu decidi que eu não vou largar meu curso por causa de uma pessoa que veio contra ou que olhou torto. Gravidez não acaba com a vida de ninguém. A minha vida não acabou, pelo contrário.”

Maes na Universidade_Isabelle Cunha

Isabelle Cunha brincando com sua filha Valentina na Biblioteca Central da UFPA.

Isabelle, assim como muitas mães, não dispõe de alguém para cuidar de Valentina enquanto estuda. Construir uma creche seria um meio de mudar essa situação: “Querendo ou não, tem muitas mães que param o curso por estar nessa situação de não ter com quem deixar (o filho), ou não ter como pagar alguém (para ficar com o filho)”.

Já existem muitas creches em universidades brasileiras. A Universidade Federal da Bahia, por exemplo, oferece desde 1983 uma creche, construída com o intuito de atender a demanda de estudantes e funcionários da instituição que reivindicavam um espaço seguro e de qualidade onde pudessem deixar seus filhos enquanto estudavam e/ou trabalhavam. Nela são atendidas crianças na faixa etária de quatro meses a três anos e 11 meses, e constitui-se em espaço de ensino, pesquisa e extensão, ao viabilizar atividades no campo da Educação Infantil, em articulação com outras unidades e departamentos da UFBA.

Tentamos entrar em contato com o setor responsável pela assistência estudantil (SAEST – Superintendência de Assistência Estudantil) para saber mais detalhes sobre a proposta para criação de creche na Universidade Federal do Pará, mas não obtivemos retorno.

Legislação ampara mães universitárias

Existe um projeto de lei de nº 7.187, proposto pelo deputado federal Pedro Cunha Lima, em março de 2017, cujo objetivo é construir creches nos próximos campi de instituições federais de educação superior do Brasil. O projeto está aguardando Deliberação na Comissão de Educação (CE).

O PL no 7187/2017 altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Segundo o PL, a inserção de creches em universidades federais é bastante baixa e vem decrescendo ao longo do tempo. Em 2000, havia 27 creches universitárias federais. Já em 2015, eram apenas 17 creches, em IFES, reunindo somente 1.213 matrículas. No PL, consta também que o projeto E-cidadania-um portal criado em 2012 pelo Senado Federal com o objetivo de estimular e possibilitar maior participação dos cidadãos nas atividades legislativas, orçamentárias, de fiscalização e de representação do Senado – reivindica a criação de creches nas universidades e faculdades do Brasil e até agosto de 2016 recebeu mais de 10 mil apoios online.

A Universidade Federal do Pará também possui um regulamento para apoiar estudantes no período da gestação. O regulamento da UFPa atende o artigo Art. 1°, da Lei n° 6.202, de 17 de Abril de 1975, que diz que a partir do oitavo mês de gestação e durante três meses a estudante grávida ficará assistida pelo regime de exercícios domiciliares, ou seja, a estudante gestante tem o direito de fazer exercícios da universidade ou algumas matérias sem precisar sair de casa, além do Auxílio Creche oferecido pela instituição.

O Auxílio Creche é um programa de assistência estudantil da UFPA, que garante ajuda financeira para mães e pais universitários a partir dos 18 meses de vida da criança, seguindo a faixa etária adotada pelos conselhos municipais de educação para acesso de crianças ao ensino. Segundo Régine Moreira, assistente social da SAEST-UFPA, a divulgação dos auxílios é feita por meio das redes sociais e pelo site oficial da universidade. Há também o grupo TRIE itinerante, formado por psicólogos, assistentes sociais e pedagogos que viajam pelos campi da universidade para apresentar os serviços oferecidos e orientar os alunos.

Apesar do regulamento e dos programas disponíveis, a instituição ainda é carente de outras formas de assistência tão importantes quanto as realizadas atualmente, como a assistência psicológica e campanhas contra a intolerância, demandas relatadas por Rafaela Carvalho e Isabelle Cunha.

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