OPINIÃO

Publicado por facom em 13 de junho de 2017 às 18:09

Diante dos recentes casos de violência no Pará, a professora Alda Costa analisa a cobertura jornalística sobre o tema na Amazônia

A VIOLÊNCIA COMO INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA

A violência é um problema de todos, e não restrito a segmentos da sociedade.  Essa é a preocupação primeira que devemos ter com relação a esse grave problema social. As ações somente serão efetivas quando todos tiverem consciência da seriedade da questão, que envolve a todos, independente de classe social.  Infelizmente o que percebemos é que os discursos permeiam à criminalização da violência.

Em menos de um mês, a sociedade paraense foi assombrada com mais um capítulo triste na sua história, duas chacinas: uma no município de Pau d’Arco, com a morte de dez pessoas na fazenda Santa Lúcia, durante ação das Polícias Civil e Militar, e cinco pessoas assassinadas no bairro da Condor, além de outras 14 feridas, em Belém do Pará. Sem nos determos nos outros assassinatos em massa ocorridos em 2014, 2011 e 1994.

Além da gravidade dos fatos, nos preocupa o modo como o jornalismo constroi os sentidos ou o debate sobre a violência com a sociedade. Entendemos o jornalismo como um tipo de comunicação e de conhecimento, que tanto produz um conhecimento sobre o mundo social, quanto reproduz os conhecimentos existentes no mundo. E essa é a grande preocupação, o que o jornalismo está dizendo ou escrevendo sobre a violência na Amazônia.

Especificamente, com relação aos conflitos de terra na Amazônia, lembro que em 2005, diversas entidades, entre elas a Comissão Pastoral da Terra, produziram um documento denominado de “Violação dos Direitos Humanos na Amazônia: conflito e violência na fronteira paraense[1]”, em que denunciavam o assassinato de mais de setecentos camponeses e outros defensores de direitos humanos nos últimos trinta anos no Pará. A maioria das mortes foi registrada nas regiões sul e sudeste do Estado. No documento produzido foram feitas várias recomendações com objetivo de enfrentar os problemas dos trabalhadores e buscar a efetivação dos direitos humanos, entre eles: considerar a enorme quantidade de assassinatos, denúncias de pessoas desaparecidas, existência de cemitérios clandestinos, cumprimento dos mandados de prisão decretados contra pistoleiros e fazendeiros; investigação dos casos de ameaças, tentativas e assassinatos de trabalhadores rurais, lideranças e demais defensores dos direitos humanos na região; trabalho escravo, reforma agrária, entre outras coisas. De que forma o jornalismo tem trabalhado esses dados? O que a sociedade paraense sabe sobre os conflitos de terra no Pará e por que eles ocorrem?

Com relação à violência urbana, no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública[2], foi constatado que quase 60 mil pessoas foram assassinadas no Brasil, em 2015, ou seja, a cada nove minutos uma pessoa é morta de forma violenta. Os dados comprovam ainda que, mesmo o Brasil não vivendo em guerra declarada, as mortes violentas são assustadoras: de 2011 a 2015, foram assassinados 279 mil e 567 pessoas. Dessas mortes intencionais, 54% são jovens entre 15 a 24 anos, e 73% são pretos e pardos.

É gravíssimo ouvirmos de mães que perderam os filhos para a violência afirmarem em depoimentos que ser negro e morar na periferia é um perigo, pois quando há confrontos policiais ou ações comuns, os jovens são tomados como marginais e são os primeiros a serem vitimados.

O que essas mortes dizem a nós e como o jornalismo trabalha essas informações?

Desde 2005 temos nos dedicado a pesquisar a relação entre mídia e violência, buscando compreender como o jornalismo constroi os sentidos desse problema social para a sociedade. Infelizmente ainda constatamos que os jornais impressos e programas televisivos, voltados para o jornalismo policial, priorizam notícias em que as narrativas reiteram a criminalização da violência, da pobreza e da periferia. Identificamos um jornalismo com conteúdo vazio, superficial, exposição excessiva de conteúdo imagético negativo, com apelo ao sangue e à morte, negação da ética e dos direitos humanos, invisibilização dos sujeitos que morrem, sem voz, identificação ou contexto de vida, relação tensa entre sujeitos e instituições, assim como a estigmatização da cidade e reiteração dos rótulos de algumas localidades periféricas, ora denominadas de “territórios da violência”, ora de “territórios do medo”.

Nessas construções jornalísticas, em que se mistura factual com o ficcional, observamos a ideia compartilhada segundo a qual “o bandido bom é o bandido morto”, e que é necessária a intervenção policialesca do Estado, sem permitir a discussão ou reflexão sobre a violência que ocorre na sociedade amazônica. Do mesmo modo, nos programas televisivos é comum ouvir o enunciado “cidade de bem” ou “sociedade de bem”, repetido várias vezes pelos apresentadores dos programas, em oposição a uma outra, implicitamente construída por enunciados narrativos como sociedade do mal. Evidentemente, essa construção pode intervir de forma conflitual, ou seja, “é indício de um conflito de apreensões, impossível de ser decidido a não ser pela imposição de um ponto de vista único”, conforme nos lembra  Michaud (1978, p. 89). Esse ponto de vista único é perigoso e tendencioso, muitas vezes utilizado como barganha política para desqualificar governantes e políticos, sem a preocupação com a violência em si.

A mídia precisa qualificar as informações divulgadas, principalmente com relação à violência. Não é possível mais enfatizar números de mortes sem identificar quem são os que morrem e porque morrem. A saída para o jornalismo contemporâneo é a informação qualificada, ou seja, aquela que pode contribuir para o cidadão entender o que é a violência, e como ela afeta a vida em sociedade. Por isso, precisamos de qualificação de conteúdo, de informação, de fontes, de vozes diferenciadas que falem sobre as condições em que vivem.

Portanto, como já apontava McLuhan, os meios não são meramente canais de informação, mas fornecem o material para o pensamento, assim como também moldam o processo de pensamento. Assim, nossa preocupação é depositada num jornalismo que pouco ou nada tem contribuído para discutir a violência em sociedade.

[1] SAUER, Sérgio. Violação dos direitos humanos na Amazônia: conflito e violência na fronteira paraense / autor: Sérgio Sauer; [tradução: Phillippa Bennett, Julia Figueira-McDonough, Marsha Michel e Kristen Schlemmer]. – Goiânia: CPT; Rio de Janeiro: Justiça Global; Curitiba: Terra de Direitos, 2005. 170 p.

[2] Informação disponível em < http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2017/01/Anuario>.

*Alda Costa é professora da Facom e do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia, da UFPA. Coordena o projeto de pesquisa Mídia e Violência: narrativas midiáticas na Amazônia Paraense (UFPA/CNPq) e o grupo de pesquisa Narrativas Contemporâneas na Amazônia Paraense (NARRAMAZÔNIA/UFPA/UNAMA/CNPq). Trabalha com temas e questões que envolvem: televisão; jornais impressos; mídias sociais; violência e violência simbólica; segurança pública; direitos humanos; política; narrativas midiáticas. Realiza Estágio Pós-Doutoral no Programa de Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (PPGCLC/UNAMA), analisando as relações entre mídia, violência e atores sociais.

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