FACOM PROMOVE EVENTO EM ALUSÃO AOS 53 ANOS DO GOLPE DE 1964

Publicado por Everton Santos em 28 de março de 2017 às 18:48

Histórias da ditadura serão compartilhadas pelo jornalista Eduardo Reina em debate

A Faculdade de Comunicação da UFPA, por meio do projeto de extensão Tramas Coletivas, promove em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará (OAB-PA) e o Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos o evento Histórias da ditadura: 53 anos depois do golpe, na próxima sexta (31), às 9h. O debate faz parte das atividades do “Isso me diz respeito” e marca os 53 anos do golpe militar de 1964. O público que comparecer ao Auditório da Coordenadoria de Capacitação e Desenvolvimento da UFPA (CAPACIT) vai poder participar de um debate entre professores e alunos de várias faculdades, além de prestigiar Eduardo Reina, um renomado jornalista que lançará o livro “Depois da Rua Tutoia”, de sua autoria.

A obra aborda a violência praticada pelos governos militares contra mulheres grávidas que foram presas durante a ditadura e tiveram os filhos tirados do seu convívio. Com personagens reais e fictícios sobre aquele momento histórico, o livro trata das consequências para as vítimas e suas famílias por meio dos relatos de diversos casos, inclusive com alguns ligados ao Estado do Pará. Em entrevista concedida à Facom, Eduardo Reina falou do processo de investigação das histórias ocorridas na ditadura e da importância de divulgar o seu livro em Belém.

Eduardo Reina durante sessão de autógrafos
Eduardo Reina durante seção de autógrafos.
Foto: Tutti Pasqua

Facom – O que lhe motivou a pesquisar sobre a ditadura, com ênfase nos casos tratados no seu livro “Depois da Rua Tutoia”? Há algo na sua própria história de vida que lhe levou a pesquisar e a escrever sobre esse tema?

Reina – Sempre morei na região do ABC paulista, uma região politizada. E por isso mesmo alvo de grande e forte repressão durante a ditadura. Minha vida sempre esteve entremeada de ações políticas. A curiosidade sobre o tema cresceu durante a universidade. Creio que precisamos contar muitos períodos da nossa história que têm apenas uma versão, a do mais forte, do dominante; ou que sequer foi contada ainda. O assunto tratado no “Depois da Rua Tutoia” é um tema que merece muita exposição. Há muito o que contar sobre sequestro e apropriação de bebês e crianças durante o período da repressão.

Facom – Como se deu o processo de investigação dessas histórias? Você teve muitas dificuldades para conseguir essas informações e definir os personagens?

Reina – A pesquisa foi feita em vários períodos de tempo. Mas foi mais aprofundada nos últimos três anos, quando consegui estabelecer algumas conexões entre fatos e pessoas e revelar o sequestro de bebês e crianças durante a ditadura no Brasil. Obter informações e declarações é o grande obstáculo dessa investigação. Há um pacto que impede o acesso aos documentos da ditadura. São poucas as pessoas que se dispõem a falar abertamente sobre o assunto.

Facom – Muitas pessoas falam que a atual situação política do país é permeada por violações de direitos trabalhistas, censura a manifestações contrárias aos ideais governistas e grande participação da mídia nesse silenciamento da insatisfação pública com o governo brasileiro atual. Você acha que o que estamos vivendo pode ser uma forma disfarçada de ditadura?

Reina – Não. A dureza dos fatos que estamos enfrentando não é uma ditadura disfarçada. Faz parte de um processo organizado e executado por quem sempre esteve no poder. É uma direita rica, empresarial, que sempre esteve no poder no Brasil. Sempre mandou, independente do governante de plantão que estivesse no comando do país. A esquerda, com sua preocupação com o social, avançou um pouco nos últimos anos. Avanços esses que agora estão sendo derrubados a golpes de machado. Sem que a população reaja, infelizmente. Quando o povo despertar para o que está acontecendo poderá ser tarde demais.

Facom – Você afirma que muitas perguntas sobre casos que ocorreram durante a ditadura ainda estão sem resposta. A que se deve, na sua opinião, essa falta de investigação por parte das autoridades?

Reina – Há um pacto entre governantes, militares e todos os envolvidos, cito inclusive o empresariado. Não se possibilita o acesso aos documentos, relatórios etc. porque através deles vai se estabelecer a conexão entre os vários agentes envolvidos na repressão. Vai se descobrir quem deu as ordens, quem as cumpriu e quem foram as vítimas. E mais: vai se descobrir a mando de quem e interesse de quem (quem financiou) partiu toda a repressão.

Facom – Qual a importância de lançar o seu livro na Região Norte?

Reina – É nesta região que se baseou uma das mais crueis cenas de guerra na ditadura: a guerrilha do Araguaia. De todos os cinco casos de sequestro de bebês e crianças que consegui levantar até agora, quatro estão literalmente interligados ao Araguaia. São sequestros de bebês e crianças filhos de guerrilheiros. E o outro tem participação de militar que atuou em Belém do Pará. Esses casos vão virar um novo livro, um livro reportagem. Há muito o que se estudar e investigar sobre a ditadura na região Norte brasileira.

SERVIÇO
Isso me diz respeito! – “Histórias da Ditadura: 53 anos depois do golpe”
Data: 31 de março
Horário: 9h
Local: Auditório do CAPACIT (Campus Básico da UFPA)

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